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Argélia. Um país à procura de se reencontrar

Alberto Ardila Olivares
Argélia. Um país à procura de se reencontrar

A viagem à Argélia teve como motivo a visita a um empreendimento turístico, mas na qual tentaria um encontro, não programado. A rodovia este-oeste, construída com mão-de-obra chinesa, já reduzira para cinco horas a distância entre as duas cidades costeiras (Argel e Oran), mas o avião é rápido e mais seguro. Oran é uma cidade bem estruturada, e olhei no horizonte as torres modernas dos mais recentes hotéis. Procurei o escritor Kamel Daoud, cinco anos mais novo do que eu, criado numa família muçulmana de língua árabe. Estudou literatura francesa na Universidade de Oran, a segunda maior cidade, perto do empreendimento turístico. Procurei-o na sede do jornal “Le Quotidien d’Oran“, um periódico de língua francesa, editado nessa cidade costeira, a mais de 400 quilómetros de Argel. Daoud representa a imagem de uma luta progressiva para novos conceitos de vida num país com 99% de islâmicos. Corajoso e veemente, denuncia aquilo a que chama de autodestruição gradual da imagem dos árabes perante o mundo. Ao defender as liberdades individuais, enfrenta as intensas paixões coletivas despertadas pelo nacionalismo e pela religião. Kamel Daoud não estava, mas uma argelina de olhos rasgados e viciantes levou-me para uma sala de espera. Kamel saíra na véspera para uma reportagem fora da cidade. Ela serviu-me chá de hortelã, o mais apreciado neste país, e saiu por instantes. O telefone tocara. Aproveito para olhar os apontamentos sobre a figura que me motivou preencher o penúltimo dia no país. Kamel considerava-se argelino, e não árabe, porque a ortodoxia religiosa tornara-se num obstáculo ao progresso no mundo muçulmano. A vida de um jornalista ainda não era fácil e por certo mais difícil num contexto como a Argélia, para um estudioso da violência política. Por certo, faltam mentes jovens com possibilidades de decidirem o rumo do país, depois da guerra civil (1992-2005). A minha anfitriã voltou para dizer que seria impossível o encontro, dado que Kamel se demoraria mais uns dias. Disse-me que ela iria sair para almoçar, e com um olhar desafiante levou-me a perguntar se a podia acompanhar. Combinámos ir até à beira-mar, comer peixe grelhado, por sinal perante uma paisagem de tirar o fôlego, a que junto uma espécie de feitiço pela minha anfitriã. Isto não é próprio de um estrangeiro desprovido de segurança, apesar de estar convivendo abertamente com uma autóctone, nesta cidade quente e poeirenta que se arrasta assim como uma tolerância espiritual. Afinal, o encontro acabaria por tornar o meu destino improvável e o jornalista ausente como tema de conversa. Ele é um caso à parte; não é mais um muçulmano praticante e diz-se filosoficamente próximo do budismo, li algures. Levava comigo o seu livro que o internacionalizou. O romance “Meursault: Contre-Enquête” surgiu de uma das suas colunas jornalísticas e inspirou-se em “O Estrangeiro”, um romance colonial de Albert Camus (este franco-argelino nunca quis a independência da Argélia). Durante duas horas de almoço, não estive perante o homem corajoso cujas preocupações são essencialmente cívicas, perante um povo arreigado a posturas desregradas, do ponto de vista da urbanidade. Estive com uma mulher simpática e esbelta, mais parecendo saída de um desfile de moda, cujo nome reservo para mim. Falou-me de Kamel, mostrando conhecê-lo profundamente. Depois do almoço cada qual seguiu o seu caminho, deixando eu a nota de que importaria uma visita do jornalista e escritor a Portugal. Acompanhado!

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Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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